Pesquisa FAPESP - Estou voltando de Ribeirão Preto, onde participei do IV Simpósio em memória do Professor Miguel Covian, renomado neurocientista argentino que se radicou no Brasil na década de 1950, dirigiu o departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto por muitos anos e faleceu em 1992. Voei de Boston a São Paulo e dirigi até Ribeirão, tendo lá estado pela última vez há uns 11 anos. Na estrada, notei que os poucos cafezais que vi da última vez agora dão lugar a quatro horas ininterruptas de canaviais, eucaliptais e pedágios, inúmeros pedágios. Ribeirão cresceu muito, incontáveis hotéis e prédios de apartamentos, mas a Avenida do Café que liga a rodoviária ao campus da USP continua lá, cheia de botecos para o final de tarde e, agora, também de radares.
Enquanto aluno, sempre ouvi muito a respeito de Miguel Covian, vindo a conhecê-lo em Budapeste, durante o Congresso Internacional de Fisiologia em 1980. Ouvindo como seus ex-alunos falam dele, percebe-se que Covian foi adorado e é hoje idolatrado por toda a faculdade. O mais emocionante é que seus discípulos continuam em Ribeirão levando a mensagem do mestre, como explicou o professor José Antunes Rodrigues. Pilar da endocrinologia nacional, Antunes trabalhou desde cedo com Covian, tendo atingido inigualável sucesso em seus aproximadamente 50 anos de dedicação à pesquisa. Ex-alunos de Antunes hoje têm sucesso, não só nos quatro cantos do Brasil, como em diversas partes do mundo. Causa inveja o carinho e o entusiasmo com que os atuais alunos de Antunes falam sobre o mestre e o trabalho que estão desenvolvendo. Outros professores mais jovens já estão repetindo a dose, levando com sucesso o bastão de Miguel Covian por mais uma geração. Isso tem que ser aplaudido de pé, uma vez que são poucos os exemplos em que o brilho de grupos ou departamentos continua através de várias gerações, fazendo com que esse seja um dos melhores, se não o melhor, do país.
Alem de rever amigos e colegas com quem trabalhei nos meus tempos de USP, fiquei sabendo das últimas novidades e recebi mais uma dose da hospitalidade ribeirãopretense: ganhei dois quilos. Por outro lado, fiquei triste, pois contava encontrar mais uma vez o mestre Renato Migliorini, outra figura colossal que infelizmente nos deixou prematuramente no começo do ano. Organizado pelo chefe do departamento de fisiologia, professor Benedito Machado, o simpósio foi um sucesso, reunindo cientistas que trabalham em São Paulo assim como convidados internacionais. A língua oficial foi o inglês, e o idioma não foi problema para a audiência de professores, pós-graduandos e alunos de graduação, que encheram o anfiteatro durante todo o evento. Os brasileiros foram muito bem, apresentando trabalhos de alta qualidade em neurociências, fisiologia renal e cardiovascular, endocrinologia e sinalização celular. O simpósio foi encerrado com um debate sobre os novos desafios enfrentados pelos fisiologistas. Houve consenso que entre esses desafios encontram-se a captação de recursos, a formação de núcleos multidisciplinares e a atividade de grupos que buscam limitar ou acabar com a pesquisa em animais de laboratório.
Antes de falar dos desafios, queria registrar que hoje os fisiologistas estão em alta demanda e têm uma oportunidade de ouro, uma vez que biotérios em todo o mundo estão lotados de animais transgênicos que precisam ser estudados. Durante a expansão da biologia molecular nos anos 1980, a fisiologia clássica perdeu um pouco a força, uma vez que o “badalado” era clonar e amplificar genes, transfectar células etc. Alguns anos mais tarde, a evolução da biologia molecular deu origem aos animais geneticamente modificados, ou seja, animais em que genes foram adicionados, mutados ou eliminados. Hoje, a criação desses animais está tão banalizada, que estes podem ser obtidos a partir de consórcios governamentais ou mesmo encomendados de um número crescente de empresas. Assim, o estudo da fisiologia desses “novos” animais é muito importante para se determinar a função desses genes. De repente, conhecimento de fisiologia, de técnicas de estudo e preparação de camundongos voltou a ser essencial, dando-se muita preferência no mercado de trabalho a indivíduos com PhD em fisiologia.
Sem dúvida, os movimentos de proteção aos animais usados em experimentação representam uma ameaça crescente para os estudos em fisiologia. Mesmo que alguns mecanismos fisiológicos possam ser estudados “in silico”, em modelos celulares ou mesmo moleculares, parâmetros como pressão arterial, temperatura corporal, concentração do meio interno, e muitos outros, têm que em algum momento ser estudados em animais vivos. Eu já escrevi a esse respeito anteriormente (veja artigo) e, a julgar pela rapidez com que esses grupos de ativistas obtêm vitórias em diversos países, é possível que em 20-30 anos os fisiologistas estejam enfrentando grandes dificuldades para realizar seus estudos. Um dos debatedores mencionou que os fisiologistas brasileiros estão em posição vantajosa por enquanto, uma vez que os comitês que regularizam pesquisa com animais no Brasil são bem mais flexíveis e permitem maior latitude aos pesquisadores do que os comitês americanos e europeus.
Finalmente, os recursos financeiros. Pesquisa em laboratório é uma atividade extremamente cara, requer insumos importados e pessoal especializado. Quem trabalha nessa área sabe que a maior parte dos experimentos realizados dá errado e tem que ser repetida inúmeras vezes em condições diferentes. Mesmo quando dá certo, o experimento precisa ser reproduzido para se ter certeza do resultado. Tudo isso eleva demais os custos da pesquisa e faz com que o sucesso do pesquisador seja freqüentemente acompanhado pela sua capacidade de gerar recursos.
Em algum momento, o painel de debatedores foi provocado pela seguinte pergunta: o que seria necessário para um pesquisador trabalhando no Brasil conseguir o Premio Nobel? A meu ver, para que tenha uma chance, o pesquisador brasileiro precisa de recursos nos mesmos níveis que os pesquisadores internacionais. Se há 30 anos, alguns pesquisadores brasileiros - tais como o Antunes e o Migliorini - tivessem recebido cerca de US$ 1 milhão por ano, durante uns 15-20 anos, nós teríamos tido uma chance. Esse valor não é astronômico, sendo provavelmente abaixo do que um dos cerca de 300 investigadores do Howard Hughes Medical Institute tem a sua disposição por ano, um instituto que conta com 12 ganhadores do Premio Nobel.
Por que a FAPESP não toma a iniciativa e, com um orçamento de cerca de US$ 300 milhões por ano, não traz para si o desafio de selecionar 50 jovens investigadores para receber US$ 1 milhão por ano pelos próximos 20 anos? Vamos comemorar o Nobel em 2030?